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Marta Van Zeller - Fotografia

Nos 120 anos do nascimento de José Van Zeller Pereira Palha

Marta, 06.07.15
David Fernandes's photo.
 
Artigo de David Fernandes.
 
A história é feita de massas e pessoas... Eu prefiro a história das pessoas, porque são elas que depois se massificam na história ou não...

Não conheci o "Zé Palha"... Faleceu no ano em que nasci......

Dizia-me a minha mãe que era um homem altíssimo, magro e feições duras, de portentoso nariz aquilino, como compete aos aristocratas, que, por vezes, abria um sorriso tímido, para dar uma palavra sempre cordata com todos...

Na Cidade, outrora opulenta Vila, recordam-no sobretudo pelo Colete Encarnado...

Num deles, a sua filha, a "eterna" Menina Tareca, recordava, a título do que era o rigor, a educação e competente uso do bens públicos, que "o Pai, na época presidente da Câmara, não nos deixava andar no carro da câmara. Dizia que na quinta havia cavalos e carros de cavalos. Se queríamos ir à Vila, teríamos que ir desse modo." Este testemunho impressionou-me...

José Van Zeller Pereira Palha nasceu a 16 de Novembro de 1895, filho de Constantino Nicolau Pereira Palha e de Maria do Patrocínio Palha Van Zeller. Era neto do benemérito José Pereira Palha Blanco. Casou em 1924 com Isabel Infante da Câmara Assis, de quem teve Maria Teresa de Jesus Assis Pereira Palha e José de Assis Pereira Palha.

Nasceu imbuído da tradição que um homem e um povo comungam um destino igual e que esse destino chamava-se Vila Franca de Xira. O avô e o pai tinham sido filantropos, autarcas e homens dedicados ao desenvolvimento de Vila Franca.

Deve-se ao avô um grande desenvolvimento urbano, a criação de infraestruturas de apoio social e a Praça de Toiros, cujos lucros se destinavam aos órfãos e aos mais necessitados. Deve-se ao pai, a continuidade de um mister em prol da Vila, com um preocupação de que a instrução era uma coisa não só benéfica como necessária. À maneira de exemplo, todos os campinos da sua casa foram convidados e estimulados a aprender a ler.

"Príncipe reinante de Vila Franca", como lhe chamou Augusto de Castro foi um homem de uma simplicidade e de ascetismo moral impressionante. Ribatejano de alma e coração dedicou toda a sua vida à lavoura, aos cavalos, às rosas e, sobretudo, a Vila Franca de Xira.

Sempre activo na sociedade, José Van Zeller Pereira Palha foi durante dez anos presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (que sonhou redesenhar arquitectonicamente), presidiu à assembleia geral e direcção dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira, tendo sido também sócio honorífico do Ateneu Artístico Vilafranquense, colectividade pela qual nutria a mais profunda estima.

Reconhecido como excelente articulista da Vida Ribatejana, foi ainda presidente da mais antiga associação de Vila Franca, a Associação Fraternal dos Artistas Vilafranquenses, onde promoveu na linha do que o pai tinha feito, a promoção da aprendizagem primária para os trabalhadores da lezíria.

Foi o fundador das Festas do Colete Encarnado e um dos maiores impulsionadores da ponte Marechal Carmona, consciente que o Tejo unia as margens, mas era preciso mais.

Em 1944, organizou a primeira Festa de Alcamé, que não se realizava desde o início do século, com uma grande simplicidade e sentido do pulsar devocional da época.

Deve-se à sua acção um projecto urbanístico revolucionário cuja primeira parte era a abertura da Rua Palha Blanco, abrindo artérias novas e praças, tornando Vila Franca numa cidade arejada e moderna. Infelizmente "as pressões exteriores" não deixaram que se cumprisse esse sonho, mas ainda assim a ele muito se deve o desenvolvimento sustentado da malha urbana.

Por alturas das cheias do final da década de 60, doou terrenos em Povos para que fossem construídas casas para realojar as famílias que tinham ficado sem haveres.

Morreu onde passou quase toda a sua vida, na quinta do Cabo, a 16 de Julho de 1978, 46 anos precisamente sobre a data do primeiro Colete Encarnado.

Na verdade, a primitiva Festa intrinsecamente a ele se deve, realizada em 1932, com o apoio do jornal Vida Ribatejana e para angariar fundos para os Bombeiros.

Iniciativa cívica e não autárquica, o Colete Encarnado nasce de um facto curioso, que foi o facto de José Van Zeller Pereira Palha ter comprado peças de tecido vermelho para que os campinos da casa trajassem de igual por ocasião das Festas. O Colete Encarnado, vulgarizou-se entre os campinos e evoca hoje a identidade vilafranquense...

Este ano, José Palha faria 120 anos!...
Digam lá que a História não é feita de pessoas concretas!
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